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respirar

respirar

25/03/21

Prosa Insana

#15

Pensar e ser pensando, numa osmose em que o tempo é único. Diluído, vago no vento e percorro pontes. Sou quem serei passado. Respirar respirado respirando, quase sem pele, de osso esguio e firme no mundo fantasma da aparência. Tanto de manifesto! Tanta solidez enganada! Tanto de ilusão em véus de névoa que vestem de maravilha o mistério flutuante que tudo toca. Jejuando da morte, alimento-me da vida semeada para partir. Todo o momento fugaz me cheira a eternidade. E sou raiz de incessante rumo à profundidade sem-fim. E sou copa que se expande à luz que desce. Ouço na manhã que se abre do negro o pássaro que sou. Sou a máquina que conduzo no mágico sentido de nenhures. Emprego-me no ócio e estudo cada som vindo da extinção para se extinguir. No meio, no meio de tudo isto, caio no erguido Silêncio. E pairo, onde és presença, onde me habito, sereno.

27/02/21

Prosa Insana

#14

Persigo os teus passos. Tenho um foco: alvo: memória. Na névoa do tempo desnuda-se a verdade. Terno, interno menino, perde-te em ti. Há luz. Algures. Angélica figura dança nos meus olhos. Tropeço em ti, caminho. Lanço-me ao teu olhar. Cego pela paz que explode em mim. Fogo, clarão, nos céus rebentando. Uno com a figura, no espaço vago redopiando, é a nossa dança, angélica figura, o foco que me leva. Escuro é tudo. Cumpre-te encontrar o facho, encurralar por um eterno segundo a treva que ronda, sedutora, alienante.  Luz agora, em mim - teu caminho -, menino.

 

 

 

 

21/01/21

Prosa Insana

#13

Do portal espreita a figura animal. Negro o dorso, verdes os olhos que fitam o meu vazio. Está prestes a atacar: vê-se a intenção. Abro-lhe o vazio: Salta! Salta para onde a dor se afoga. Mostra as garras. Saliva a vontade de se lançar. Excita-me, a hesitação, a força da sua espera. Aguardo. Expando o vazio. Acelera-se a respiração. Ruge por encontro, por fusão. A entrega será voraz, rápida: uma vez no vazio, tudo é perene. Há um odor a eterno que se espalha, inebriante, sedutor, fatal. Não salta ainda, a figura animal. Retesa o corpo. Afina a íris: mira. Desconfia. Depois, tocado por sopro magnético, confia, d’amor desvairado, no desconhecido. Do portal lançado, descansa agora, como bravio gato, amansado no sonho do meu vazio alaranjado.  

 

 

03/01/21

Prosa Insana

#12

Em imperial voo me lancei sobre o perigo. Rochosos membros venci. Obrigações de chumbo derreti. De cabeças e cabeças, de corpos e corpos me desfiz. E quando te vi, soube, no nu primeiro olhar, seres quem procurava. No amor cresce a ilha: aí te conheci, Isolamento. Por ti me apaixonei. Sopro de presença que embala a livre existência. Componho o jardim das sementes que se abrem ao Bem. És sol:o que receberá esta carne quando o tempo for o de apodrecer. E virá a onda desregrada regar a minha decomposição.  Ah, que frescura, o solto pensar… Que doçura, o rasgo d’entresonhar. Deste lado seguro, perdido na vagância dum mareante Cosmos. Sempre abundante

 

 

23/11/20

Prosa Insana

#11

Que sintamos como ferida toda a estupidez que não consigamos debelar, a ingratidão e dissimulação que se espalhar pelo ser ou pelo ar, a falta de integridade, a falta de humildade que nos há-de decerto matar. Que o músculo se contraia e doa à entrega cega a convenções, ao consumismo da frase-feita, da ideia do outro germinada em mim supondo-se genuína. Que se combata o espírito em pedra tornado, da prática escravo, a alastrar daninhamente, cada vez mais rígido, cada vez mais hegemónico, maquinal, de materialidades intumescido, egoísmos avantajados, na verdade débil, dependentes as cabeças de aplicações ao invés de saber aplicar as suas reais aptidões. Não dói ver-nos esmagando aflitivamente a capacidade de imaginar e criar alternativas nadas-nossas, isto é, de nós verdadeiramente nascidas, sentidas de forma inteira e inabalável? Vamos vivendo mortos, respirando rápida e superficialmente, sem fundo em nada, com a alma à venda ou embotada, de Amor definhado, espicaçado (apenas) pela baixa penetração em carne. Que sintamos como ferida a ser tratada tudo quanto nos faça humanamente encolher e sufocar!

 

 

14/11/20

Prosa Insana

#10

Olha o que escreves. Olha o que dizes. Vê o que fazes. Tudo com cuidado. Tudo muito bem pensado. Sê inteligente: mostra-te inteligente, burro! E o passo: deverás dá-lo para a esquerda ou para a direita? O que te convém? Que olho a quem piscar? Olha a moda! Olha a imitação! Posição. Posse. Comando! (Ah, tudo con-tro-la-do!...) Esconde a irritação. Irriga a camuflagem. E sorri sempre. Não esquecer. Nunca esquecer! Boca arreganhada e raiva engolida. Alimenta-a – em surdina. Ser-te-á útil. Não integres nada. Não admitas nada. Mente. Não compulsivamente: serás apanhado num repente. É preciso ter astúcia. Sê amigo. Incondicional: de ti, claro. E de quem te der jeito. E de um ou dois que tragas verdadeiramente no peito. És humano: há fraquezas: Ainda: lá virá o tempo… Tempo? Não te percas. Acompanha. Sou uma máquina de raciocinar. E tu já deves ter passado para outro modo. Já te chamam ansiedades. Já deveres inventados se te colaram à pele plastificada; encontros orgiásticos com o bom hábito de ruminar: que belo pode ser um bom prato. Por onde andávamos?... Tempo, não era? A era do tempo-enlatado-sempre-esgotado. Esgotado. Mini-mal rodar de disco riscado…

 

 

13/11/20

Prosa Insana

#9

Trabalha. Faz. Esforça-te. Força-te. Mais. Não pares. Nunca pares! Não te esqueças. Nunca te esqueças! Olha sempre para quem te segue. Olha também para quem tens à frente. Desconfia. No desconfiar se encontra a moeda em cuja cara reluz, sorrindo, a inscrição: vencerás. Ah, que frete? Enfrenta: tem de ser! A recompensa há-de rebolar para ti: Não é o que te rezam? Então, segue esse deus – é uma nota, toma-a como certa: como nota mental. Não sejas atrasado! Cuidado para não te tomarem por parvo. Vê como cintila já a recompensa: Ah, o prazer de (di)vagar vitorioso nas avenidas de todos os ganhos! Ser todo tudo diferente em todos os lugares! Olha a máscara: Todas as famas inchadas, esfuziantes, arquejantes, já gementes ao teu redor artificial. És dono. És senhor. Fodes com todo o plástico. Que grande sempre foste! Que orgasmo infindável!... Que majestática podre figura! Que eterna interna satisfação! Que máquina incrível! Que Cadillac do gozo forte em alta velocidade! Luxury! Vermelho sangue! Nunca parar. Nunca! Nem mesmo quando o corpo exausto se atirar para a parede à espera da bala onde reluz o brasão a ouro cunhado: tudo foi um (vão) prazer!

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