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respirar

respirar

20/09/20

ONIRONAUTA

#2

 

Revejo o teu sorriso receber o meu lento caminhar, os teus gentis modos nos olhos amendoados brilhando.

Rebenta no ar um hino que balança nos braços de árvores, voa chilreando nas asas de mínimo pássaro gozando liberdade no azul parado.

Vejo-te, depois, no teu sono apalhaçado, no bocejo fingido chamando o meu olhar.

Fito a clareza de tudo isto: estudo todos os momentos. Penso que repensar é trabalho vão, carregado de danada solidão.

E adormeço.

Prefiro, como sempre preferi, deitar-me na vida recolhida, escondida, naquela que brota fulgurante na noite noite vigiada pelo sábio mocho que vê, roda a cabeça e descansa o bico na pena de tudo saber e tudo calar, iluminado pela lua grande.

Perdoo o mundo que nos amarrou. Perdoo-me ter nascido dele apartado.

Aceitar.

Aceitar que quando é tarde o presente, vale mais em vale encantado descansar, olhando para as estrelas que brilham de certa provecta verdade: dançar sem par cansa até a mais lutadora alma.

Mas de derrota não se alimenta o espírito guerreiro daquele que sabe amar: anima-se do imperial desejo da humana condição, de asas se arma, a céu real ou imaginado se eleva e, do alto gozando, aí, planando, onde já não dói o esperar, como o mínimo pássaro, canta o seu vero hino de liberdade.

19/09/20

ONIRONAUTA

#1

 

Tinha raiva, o cão. Rosnava schrecklich num alemão arranhado, fanhoso, falso. Era cego, lamuriava-se. Da doença fazia seu alimento. Abria uma porta a quem lhe dava uma mão e algum conforto só para a poder fechar:

Bum, com estrondo!

E sorria mansinho na sua pequenez arfante. Schrecklich! Ich bin schrecklich! E ria. E chorava. Tudo num mesmo tempo. Vem até mim, dizia. Sou tudo o que tens. Olha-me nos olhos. Não, não assim: assim – para dentro! Vês? Sou um filho da puta. Ich bin schrecklich! Vivia da funda Noite, de alma cravada na Gruta do Medo. Morro de amor, dizia, o cão. Manchava-lhe a cara barba rala. Tremia do medo de ser rejeitado, o aleijado. E mais alto à lua, num Norte desorientado, uivava: Ich bin schrecklich! Desapareceu num dia de mistério já esquecido; às minhas mãos foi encontrado, mutilado, Schrecklich, o cão.

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