Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

respirar

respirar

02/03/21

MINIMO CONTENTUS

#9

Começou por despir uma ilusão. Depois, outra. Outra. Outra. Descalçou um desejo. A seguir outro desapertou. Dançando, sem pressa, peça por peça se desfez das roupagens que o aqueciam para se proteger do gélido exterior. Ficou apenas com um colar de contas-sementes no peito nu para dedilhar: coragem, perseverança e paciência rodando nos dedos de alento lento. No rio lavou-se das mentiras próprias e deixou-se ficar, tranquilamente sereno, contemplando o livre viajar secreto do adocicado ar.  

24/10/20

MINIMO CONTENTUS

#8

Acordei batido pelo vento. Imaginei, imagina, que falavas comigo. De que monte ou de que morte, de que mar ou de que rio levantaste a voz? Era prosa, era poesia? Quem podia dizer o que aquilo seria?… Era um sibilante sussurro mais captado do que percebido, talvez mais sonhado do que existido; mais de quimérico, menos de vivo. É de imaginar que talvez não tenha passado de fantasia, um assobio encantatório subido pela ravina, escalado pelo cansaço de esperar pelo que não digo e que tenha vindo perguntar: este conto é comigo?

08/10/20

MINIMO CONTENTUS

#7

Esmagado pelo peso da inutilidade, incapaz de produzir obra ou executar mecânico trabalho, dizia aos demais que se tornara um gerador de pensamentos positivos. Elaborava-os, ornamentava a fala, muito perfeitos e nítidos, isentos de maldade ou egoísmo, lançando-os depois para o Universo. Garantia que suspirava satisfeito antes de adormecer, exausto, com a noção límpida de ter sido cumprido o humano dever.

07/10/20

MINIMO CONTENTUS

#6

Perante o chefe, mirrado de curvado, todo ele era vénias e genuflexões. Para os subalternos, altivo e imperativo, um temível carrasco se afigurava. Em casa dominava uma família amorfa. Às putas, ganindo, implorava para que o sodomizassem. Era um homem vulgo ordinário que sonhava com lugares de estado. E, delirando extasiado, vivo se via depois de morto, do alto de estátuas acenando ao transeunte despreocupado. Na placa, em ouro gravada, se recordaria à nação a sua exemplar vida à causa dedicada. Claro que personagem assim, senhoras e senhores, meninas e meninos, nunca teve vida encarnada. É uma ficção que não encontra real no nosso grande e dissimulado mundo encantado.  

03/10/20

MINIMO CONTENTUS

#5

Rasguei-lhe a carne.

Vi que no interior tudo era uma massa escura, apodrecida, empapada.

Tive nojo do nojo que tive.

Tive medo do medo sentido.

Com arame costurei mal o mal que achava ter encontrado.

Uma farpa vinda não sei de que (sem-)razão se me espetou no coração.

Ali se fez massa escura, apodrecida, empapada.

Tive medo do nojo que tive.

Havia com certeza faca ou bisturi para rasgar a própria carne.

Tive a coragem de me abrir.

Tive nojo do medo que vi bater naquela massa escura que palpitava por se soltar.

Lancetei a ferida em massa feita.

Tive então em mãos o coração do nojento medo apodrecido na escuridão.

À luz trouxe a massa chorosa de sangue.

Uma veia espantosamente brilhou.

Com ela o peito cosi.

Tive medo que o medo e o nojo não cessassem de me adoecer.

Com a mão sobre a veia que o peito uniu uma luz ali espantosamente brilhou.     

 

 

25/09/20

MINIMO CONTENTUS

#4

Era uma feira. Desfilavam, airosas, vaidades. Havia tiro – pum: ao alvo! E rifas para alguns que chegassem primeiro. E bestas presas a carroceis girando num entontecido nunca-parar. E espelhos. Distorcidos. Palavras de ordem aqui estalavam. Palavras vãs ali rebentavam. Música em todo o lado. Sobretudo da enlatada. Risos altos. Risos falsos. Doces a granel. Algodão mágico (só podia), tão branco era. E o fogo-de-artifício, disparado na calada da noite, alegrava todas as bocas pasmas, em ooooh! abertas. Era uma feira. Julgava-se grande. Mas estava enganada.

23/09/20

MINIMO CONTENTUS

#3

Desmaquilhou-se. Engoliu uma gargalhada. Uma morte lembrada tremeu-lhe no lábio. Sufocou um choro calmo. Uma fila de rostos vagueou pelo espírito. Limpou da face os restos de pinturas e mágoas. Amanhã ia ser, de novo, palhaço.

Arquivo

Mensagens