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respirar

respirar

06/04/21

BAÚ

18092019

A felicidade, meus senhores? Vive no solto bater dum coração bondoso, no alento de uma respiração sem esforço, nos sons telúricos do mundo, na Lua toda luz, no Sol todo lume, no Universo encantado de estrelas pintado, na contemplação serena de cada pétala de uma flor, no rebentar espumoso de uma onda, na limpidez de um rio correndo para ao mar se juntar, no riso redondo de uma criança tímida, no abraço generoso e desinteressado de quem nada pede, no tilintar fino de uma moeda que nada paga nem de troca serve, no cantar alegre do pássaro livre, no voo da nuvem que passa na sua viagem, no planar augusto da grande águia, na quietude do imponente rochedo beijado pelo vento quente, na folha velha que cai, na nova que se agarra à seiva da vida num belo tronco retorcido. E tudo isto e mais que aqui não fica dito, visto e sentido com verdadeiro olhar, aberto e curioso, deitado à Vida.   

02/11/20

BAÚ

05012019

Não olhava para trás. Uma sombra, uma presença estranha, um toque no ombro sentido, não visto, um respirar aflito num quarto esquecido, uma sílaba perdida, uma promessa fina a tombar numa esquina, um gaguejar infinito, um eco achado num túnel sem início, um foco que guia, um comboio que assobia na noite mal parida, um dia que floresce, uma nuvem que passa, um inimigo que espia, uma espinha que na garganta pica, um assombro vivo, uma vivência morta, uma corda que rangendo se estica, um pescoço ao cutelo oferecido, uma amante enfurecida, um carro que grita, uma escolha atropelada, uma mão estendida, um corpo que se agita, uma mania gorda, um presente fechado, uma fachada implodida, uma explosão de alegria, uma expulsão de maleita antiga, um sorriso novo, uma gargalhada da vida perdida, um caminho serpenteante, uma ravina alta, um risco traçado, risco ultrapassado, um fim-princípio, um fio que brilha no leito dum rio, uma história encantada, um assobio interminável, uma faca, um alguidar, sangue de animal, sair do carreiro, entrar na estrada larga. Não olhar para trás.  

01/11/20

BAÚ

22022019

Na minha grande loucura, perdi-me entre os demais. Gente como toda a gente, alguns - de mais - de muita carne e pouco osso. Desvairado, são me julgando, corri e corri a seu lado, ora à frente ora atrás. Sempre diferente, procurei o igual. Nada encontrando, armado de muitos males e fantásticas máscaras, olhava para fora o que só dentro poderia encontrar: buscar na fuga é a armadilha aluada do encantado. Insaciável desgraçado, das gentes queria demais: um pouco mais. Mais. Mais. Menos. Menos. Menos: foi a minha escada. Quando tudo diminuido foi e minúsculo me senti, grande me achei. Sereno. Desarmado. Aliviado.

31/10/20

BAÚ

15022019

Jovem amigo, eis a jornada. De coração largo, forte e audaz, de desejos fantasma desapegado, afasta-te da venal toxicidade quotidiana, das felicidades-feitas que te ensinaram os doutorados espíritos nas facilidades, dos enganos apaixonados, da mesquinha cupidez, da carne viciada em ser desejada, da alma ignota que confunde o egoísta amar pequeno com o Amor maiúsculo e integral, do ter preterido ao ser. Corre nu por todos os teus defeitos. Desfaz-te dos falsos eleitos. Perde-te em lodos para saberes de que são feitos. Embrenha-te em prados e vales. Sobe a montanhas. Desce em rios. Sê sequoia, águia e serpente. Percorre desertos áridos que também têm oásis. Entra em aldeias, vilas e cidades. Ri de toda a insana vaidade. Abraça com musculado perdão a maldade. Vira para ti o olhar inteiro, limpo e arejado, de mente amplamente vazia sem deixar de querer receber o que tem a compreender. Segue no teu firme passo tranquilo. Acarinha e alimenta-te da serenidade de um velho sábio se o encontrares. A carinha pura da criança ainda livre será por ti beijada. E quando sentires o apelo calmo do fim desde sempre sabido e anunciado, escolhe o metro de terra que se abrirá ao teu último suspirar, descansado.

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